O pedido
Idéias flutuam pela ruas da cidade. Nadam pelos ares em busca de ouvidos atentos e ansiosas por olhos curiosos. Meu prazer voluntário é capturá-las, vesti-las de sedas e traduzi-las em palavras. No Caxola, a beleza acre do cotidiano veste traje de gala.
Par de olheiras mira em volta. Dúzias de blocos. Pencas de credenciais. Canetas sem tinta. Panfletos de campanha. Jornais amarelos. E quilos de papel.
Pé ante pé. Olha de soslaio. Cuida d'ali. Cuida de cá. Ninguém perto. Estômago vazio. Comida nem água. Nada.
Lá vem mais um. Meio mamulengo, meio encachaçado. Inteiro desinibido. "Dona repórti, quem foi que matou a menina, hein?", escapa dentre dentes amarelados em meio a uma baforada ébria. Aperto os lábios. Encolho os ombros. "Sei não, senhor. Quem sabe é Deus", respondo sem querer ouvir a ladainha decorada que se segue, obrigatoriamente. Ele tem lá sua tese, claro. E ela acaba com brados raivosos de "assassino". No melhor dos desfechos.
Vontade de abandonar meu corpo colado à cama. Evitar a inútil guerra: quadril versus jeans. Minhas calças não me contêm. Virei conjunto universo. Excesso de curvas e complexos. Carrego meus pés brancos pra fora das cobertas. E rastreio o caminho do banheiro.Não sou do tipo que reclama. Juro. Culpada é a fumaça, esta ranzinza. Vilão é o asfalto que bate duro no solado de minhas botas. E o vômito das sarjetas enfaradas. O mendigo roto. A mulher gorda.
Acreditar na existência dourada do sol. Mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite. Arrebentar a corrente que envolve o amanhã. Despertar as espadas, varrer as esfinges das encruzilhadas. Meu companheiro tá armado até os dentes. Já não há mais moinhos como os de antigamente. [O cavaleiro e os Moinhos, de Elis Regina]
Pisa o acelerador, cospe nuvens de grafite. Seguro a respiração. Inútil: espirro, como é habito.